sexta-feira, agosto 07, 2015

Não Basta uma piscina de colchões, 
para reparar meus sonhos. sem dese-
nhar mais um dilúvio, a medida do 
sono se espalha neste território some-
no, descaindo nas alturas de carbono, 
aparando as denúncias da matéria. Ma-
is que uma fração de tudo é necessário
para tal apreensão. Meus sonhos... 
Vivem Desertos de chão.

                    Carlos Nascimento


quinta-feira, agosto 06, 2015

SONETO 202 (AO HIPPIE) O flower power viu você crescer e seu cabelo, à mesma proporção. De São Francisco a Londres, a noção de paz e amor irá permanecer. Tune in, turn on, drop out tentou dizer: Viagem, sintonia, sacação. Na década da droga era o bordão, e o mundo viu o sonho acontecer. Mas, como todo sonho tem um fim, a roupa colorida desbotou, e agora você é pai dum outro teen: Careta, que nem curte rock'n'roll. Seu pé, porém, ainda tem pra mim um cheiro de amor livre under the toe...
                          Glauco Mattoso
                    

quarta-feira, agosto 05, 2015

Cirurgia em D menor
nunca
precisamos
tanto do grito 
como agora que os
prédios esquecem-se
como esqueletos e entre
os homens extinguem-se as
maneiras de um dizer claro
há o que se lamentar resta uma
mão enfiada no duodeno e uma pessoa
que não pode mais ser bela ou gostar de
jazz fusion um catálogo de posições sexuais
moscas evitando a decomposição entre os joelhos
paraplégicos e algo sagrando-se no mofo de um sofá lilás
nunca precisamos tanto do grito assim mesmo arrancado sem vírgulas
da última caixa torácica do mundo
                                             
                                Jonatas Onofre

terça-feira, agosto 04, 2015

Estranho
mar de pêlos
que sai da boca
e morre
Céu
de coberta fina
pune ao meio
desagradáveis nós.

        Débora Gil Pantaleão

segunda-feira, agosto 03, 2015

Radi‐ação

Perto da mesa
o televisor devora

com seu toque de arranha‐céu

os controles remotos o cinzeiro
as pequenas coisas jogadas 
pelo rádio na parede rugosa

Os pântanos na ponta da antena
as sombras e algumas outras 
semelhanças de íons 
contracapas de tablets 
e demais iguarias alimentam 
o peixe palhaço mediador 
das radiofrequências 

único morador deste ecrã. 

Ao seu lado

não param de repetir 
um badalar de orelhas

coisa equidistante
música eletromagnética

Nenhum televisor 
está livre de vizinhanças.

                   Carlos Nascimento

domingo, agosto 02, 2015

O desejo

é passar pelos touros,
adentrar o curral,
socorrer Cleonice
de sua bondade.
Me despir da vontade
ganhadora de prêmios.
Travar mais desafios
com o consumo à frente.
Arregar da batalha
e dormir na primeira calçada
que enxergar nesta rua.
Encarar a insônia,
abraçar o engano,
viver longe de ti.

          Carlos Nascimento

sábado, agosto 01, 2015

Tua Boca há de salivar mãos. Sim. Este
é teu castigo por não aparar a língua e
evitar uma solda-memórica  em tua 
garganta.  As unhas arranharão tuas 
costas, despirão o feto inquilino de
tua espinha dorsal. Sim. Atrofiar os 
olhos sob aquela luz infinda, não nos
fez esquecer o vinho mofado na mesa
de páscoa, nem perder o medo de ver
nossos filhos lacrimejarem nossas úvulas.

                          Carlos Nascimento