quarta-feira, setembro 16, 2015

Água & Vinho
Desde cedo os utensílios me ensinaram
a maneira mais serena de ser cruel
Antes mesmo de você abrir o espaço que
nunca houve entre minhas costelas
Confesso que relutei enquanto guardava
minhas mãos em algum bolso falso
O melhor que se pode aprender neste resto
de mundo é como esquecer a piedade
Não o jeito mais discreto de esconder as
unhas cheias de terra e açafrão
Quando parece que é só a melodia leve de
um piano e quase queremos sorrir
É bem nesse instante que se deve procurar
alguém para purgar nossas faltas
Fazer de olhos abertos o que nunca se faz
nem com o devedor mais maldito
Estamos aqui para nos ferir pelos séculos
mesmo quando não for possível
Então todas as vezes que estivermos perto
de sarar passaremos brasas ali
Assim como não deixarei minha mania de rir
um pouco antes da quase morrer
Eu sou mesmo cruel para além de minha voz
e da pouca força nos joelhos
Algo passa pela cabeça como fumaça ou pó
não posso saber de uma coisa
Me vejo naquele copo de água tão frágil
que você despeja num mar vermelho
                                 Jonatas Onofre

terça-feira, setembro 15, 2015

Falava com pouca decência em mãos
e mesmo buscando vogais com esses lábios ressecados
só as peles descascadas de seu rosto faziam-se voz mapiando o destino:

Imaginem os sem-calcanhares
imaginem a tumba dos santos saqueados no terraço
esses são nossos filhos
e até aqui ninguém nos ajudou.

                      Carlos Nascimento

segunda-feira, setembro 14, 2015

the new, ei Gil
vê bem, frá-
gil
eu tenho sede
sim
o mundo segue-
se-
indo des-
igual
cru-
el paz-
so-
la paz-
so yo trôp-
ego e
la cara
lavada em leve-
dura
esperando-
a
deixa-
a
cauda des-
sa ser-
eia
dessa sor-
te
que a vida
não
permite-se-
r não
outra coisa
nunca:
a gente jantando-
a inteira,
no que pare-
ser uma ba-
leia
e é
só tamanho
da
fome
total-
i-
otária

          Jonatas Onofre

quinta-feira, setembro 10, 2015

Ver o dia

esteja nesta casa para ouvir os restos de alguém
sem falar em perguntas
perfure seus poros
veja
hoje é sábado
suas pernas descansam 
e
mesmo escassas 
nenhuma calçada desiste de sua rua

              Carlos Nascimento




quarta-feira, setembro 02, 2015

[defeitos da drug-
íman 15]

- com
os dedos
nos bolsos
falsos -


só
típic
-o blood-
ígneo do poet
"a"
deve con
star
nos cr
éditos

- alguém m
ostra o com
ínício das
escadas -

seu cr
hímen deve
ser em flo
res art
office
(A.rt
ific
I.al ins
emination
S)

- difícil é
ler, nisto -

"A", lã
min
ímãn, deve
ser levado
na mão,
a idéia
nunca, na
cabeça

- neste e
difício -

São
permit
idos
trucks
perform
(nus)
áticos

- os últimos
andares serão
os primeiros
a virar escombros -

"A", o fim
vai se l
ograr
pela jam
nela
nem aí para
o f
acto
de ser
em
terminante
mente
vetad
os
des
locamentos
temporais o
u geo
gráficos
" morte, vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão
que já se vai
revejo nessa hora tudo

o que ocorreu

memória não morrerá..."

Sentinela, de Fernando Brant e Milton Nascimento, por Jonatas Onofre:

              https://soundcloud.com/jonatas-onofre/sentinela-ao-vivo

terça-feira, setembro 01, 2015

Trapdoor to Rave
examinem as avarias no meu fígado,
mas só amanhã. agora podem viver a
trip de Alzeimer [chuvisca numa te-
la analógica e nenhum de nós pode
voltar aos sete anos ou ao primei-
ro nó de línguas] eu quero chupar
o encéfalo grilado dessa Dj-genera-
tion. ou acredito muito em tudo is-
so que parece passar pela gente.mas
nem pode ser mesmo verdade um beijo,
um atrito entre nossos púbis, algum
corpo mais estranho que um copo es-
migalhando-se na tua tatu-traquéia.
[nunca deveriam ter me acordado tão
cedo, a essas horas eu nunca tenho
bons instintos] dançar para que o
holograma de nietzsche nos acenda
buquês de velas vermelhas na encruz-
ilha dadá [eu sei que todos os poets-
tars querem a escritura do cabaret
do voltaire] qualquer dia ainda vou
encher seus mictórios com a areia pro-
duzida na minha bexiga de gás élio.
pensar como se a comissão julgadora
do apocalipse estivesse de recesso
ou prestes a cometer suicídio. aqui
uma informação que pode ser importan-
te: a palavra arrebol nunca ferveu
no meu esperma.[isso é um simulador
de cabeça em curto-circo-icto quando
alguém ainda acredita no ritmo papa-
pai-madre-never-marijuana de um sonet-
otário] aí a gente começa uma festa
no lado mais bad de um satélite ingl-
ês e nem se importa com a precarieda-
de dos jogos de luz. quantas vezes vc
já se perguntou: "em que recôndito a
mulher que eu ainda quero está escon-
dendo as mãos agora?" sorria se ainda
quiser ser uma reprise afundando-se na
tarde de um domingo. esqueço numa gave-
ta todas as vezes em que não respondi
à altura com essa boca bem mais lasci-
va pairando sobre meu uniforme de anjo.
mas esta é a hora de pular com os dois
pés sobre os pedais de destruição. ver
o desespero de quem não sabe a serventia
dos alçapões e acha - mesmo - que é pos-
sível entrar na rave só pressionando-se
para cima. gozar sem as mãos no rosto
mais atônito dessa década [para ser a
obra-prima em HD de um cinegrafista ama-
dor] por sofrermos todos de imperícia e
nunca sabermos a diferença entre transe e
transa até que tenhamos danificado alguma
peça e ninguém mais consiga consertar.
                           Jonatas Onofre