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terça-feira, abril 19, 2016


                                        Terceiras Histórias - Namoa


Terceiras Histórias é primeiro álbum da Namoa: parceria formana por Camillo José, Julie Maria, Jonatas Onofre e algumas outras vozes, mãos e lentes como as de Thyago Grilo, Isabela Romeiro Vannucchi e Ricardo Pereira... 
 
 segue o link para audição e download* :
      https://namoa.bandcamp.com/album/terceiras-hist-rias
 *Para fazer o Download é só clicar em "buy now" e digitar 0 na lacuna de preço.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Almare, Almare




Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.

Fernando Pessoa

I

Vinte anos.
Permaneceu mudo. Ela repetiu, como ele já esperava, mas agora deixando transparecer alguma fúria.
Vinte anos, Ulisses.
Era uma guerra.
E depois?
Era uma viagem.
Era nada. Tudo são histórias.
A portaria do edifício Almare estava deserta quando finalmente decidiu entrar. Certificou-se de que o cheiro de álcool estava devidamente camuflado pelo perfume vagabundo, mas muito forte, que costumava usar. O que procurava só podia estar no número 9 atrás de uma porta de vidro, logo depois de um corredor, numa sala com papel de parede amarelo e flores falsas.
E esse mormaço? Até chegar o inverno vai ser assim.
Fingiu que ouvia o ascensorista dizer isto. Concordou. Ele certamente falava outra coisa. Foi assim com o cego no boteco. Enquanto a cachaça o abraçava por dentro fazendo todo calor de fora do corpo, do recinto, da rua, parecer um alívio. Há muito tempo que ele só sabia fugir, mas agora está voltando. Por isso não importava o que o outro bêbado, com aqueles olhos vazados, tinha para contar. Eram desconhecidos e por mais irmãos que a bebida os fizesse ali, nunca deixariam de estranhar-se.
É aqui senhor, Nono andar.
É aqui senhor, Nono andar.
Ei! Nono andar!
Ah desculpe, desculpe.
Ao sair do elevador tropeçou em algo invisível que depois quase se materializou mais na frente. Então alcançou a porta de vidro, mas de um vidro fosco, na verdade mesmo que fosse transparente, por causa da péssima iluminação do local, não seria possível ver muita coisa do outro lado. Importava? Ele sabia muito bem o que estava prestes a encontrar lá dentro. Entrou. Um estampido e de repente o peito ardeu. Antes que sua vista começasse a escurecer, deixou que o clarão e o susto fossem perdendo força. No outro extremo da sala, quase no ponto em que se formava um triângulo entre duas paredes, com o rosto brevemente encoberto pela penumbra, sentada, xale nos ombros, óculos ocultando os olhos, ela o esperava.
Vinte anos.
Permaneceu mudo. Ela repetiu, como ele já esperava, mas agora deixando transparecer alguma fúria.
Vinte anos, Ulisses.
Era uma guerra.
E depois?
Era uma viagem.
Era nada. Tudo são histórias.

II

O corpo de um homem foi encontrado com um tiro no peito hoje pela manhã numa das salas do nono andar do edifício Almare, na Avenida Guararapes. A vítima ainda não foi identificada, mas o mistério mais intrigante ainda é quem cometeu o crime já que, segundo os porteiros e ascensoristas, ninguém foi visto entrando ou saindo do local. A hipótese de suicídio não foi descartada.

III

Quando Ulisses desembarcou no porto do Recife deixou sua carteira cair no meio das ondas para nunca mais ser encontrada.

IV

Sentada no escuro daquela sala, tão longe do homem que a abandonou, ela pode tremer, fumar em paz e esperar. Sabe que ele está cada vez mais perto. Lembra-se do telefonema do dia anterior. Ele marcando o encontro ali. Onde tudo terminou e agora estava prestes a terminar de novo e para sempre. Sobre as coxas a arma às vezes balança. A vingança tem quase a mesma maciez e mentira do xale que ela usa a contragosto. Os cigarros bem que podiam ser infindos como as horas que antecedem um instante trágico. Ela testa a mão esquerda, depois a outra. Experimenta o peso, como se não tivesse passado as últimas décadas treinando para esse momento. O que lhe causa mais angústia e só agora ela se dá conta é que nunca pensou no que diria antes. Nunca considerou que o antes de tornar-se uma assassina exigia um grande diálogo. Por isso quando ele abre a porta os dois apenas se permitem um grito, uníssono, misto de espanto, saudade surpreendida e alívio. E a arma dispara.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Nem sons de alaúde

pois
nunca esperam
para revirar o chão
onde não sabemos
dançar 


peço que
sopres o alento
para o mais longo
desvio,

deixemo-
lo cair por
lá,

minha parte,
enferma,
aceita que sejas
tanto figura secando
num ramo sem nome
como
aquela que não despede
os olhos

e descrês do
relógio, mas

descansando,
como que
sem pulmões e
por isso sem
ofegâncias,

quase me prova
que é uma graça
saber, tão
bem,

mentir

          Jonatas Onofre

segunda-feira, dezembro 14, 2015

[vau

a respeito de espelhos,
esperas
e o pó das esporas,
soprado para
longe 


dúvida é o mesmo
que mácula
no átrio
e na camisa sem
estampas
do pensamento

um vento
levantando-a
de encontro
ao sol

é só a luz
superando
um horizonte

o dia
encravando
no dedo

isso de se
pôr

sensação,
pelas extremidades,
de que não será
possível
pés

e ainda vão matar
muito e morrer
assim,

durango
diz: não

e nem somos um
bando,

II

a respeito de expedições,
experts,
não sinalizar as
águas, espirrar
o rio antes
que ele

atravesse a
uretra

e aconteça
nas pedras, como
um câncer,
um inferno festivo
ou um vestígio

para nos deixar
depois,
sem depois,
numa trilha
de pólvora até
qualquer boca
minada

segure-se, kid
o mundo pode buscar
o teu surto
muito antes
do
combinado

durango
diz:
não é
tudo

e nem somos um
bando,

a outra banda
respira o que sobrou
de nós

o rio não, deus-
dará seu vau
mas
ninguém
atravessará]

              Jonatas Onofre

sábado, novembro 07, 2015

[rexistir a que será que se desatina?]

pois quando
tu não me
empenhaste

a vulva
estricnina
vi que não eras
parecias


[rexistir
a que será
que se
calcina?]

assumo tudo
onde nada
assina

e a vida nunca
e a dor

ensina.

[rexistir
a que será
que será
que ser
à que
andam
mentindo
atrás de
mim?]

           Jonatas Onofre

sexta-feira, outubro 23, 2015

Considerações sobre o poeta (r)existindo

Ocorreu-me agora – bem agora – que estou outro. É certo que venho repetindo – quase – isso há dias para mim e para alguns. Mas não me refiro ao sujeito – ao elemento que aceito ser nas cadeias todas que me prendem ao curso natural da existência – Não estou falando do eu que pode ter umas consciências. Tudo isso muda. Absolutamente: tudo isso passa.  Avançamos, regredimos, aprendemos, esquecemos, desprezamos... As ideias atravessam a cabeça. Os desejos exigindo respostas ágeis e práticas do corpo também sofrem alterações. A fome de entender o que nos cerca continua muito parecida com uma espécie peculiar de libido: hora ou outra entra em conflito com as parte mais racionais e frias da carne, excita nos locais mais improváveis, nega seus fogos e artifícios no momento preciso e produz orgasmos insólitos (como se todos não o fossem) quando nem se pensava naquilo. Aquilo entenda-se isso: a vida mesmo. O que não ajuda em nada quem ainda quer captar o que eu tento apontar aqui. Sei. Insisto no óbvio: mudamos, sabemos que mudamos – embora às vezes a percepção disso seja tardia – e aceitamos a necessidade de mudança. Eu por exemplo (como estava tentando dizer) só agora percebo que o poema – assim como os corpos belos ou grotescos com os quais lidamos quase sempre ou quase nunca – interfere profundamente nesse processo. Vejamos: Meu poema me altera o jeito de encarar certa atitude humana que ontem me espantava hoje me enoja e eu, de forma muito ingênua –para não dizer patética – penso que disponho de todas as suas maneiras. Os poemas alheios me constrangem na dimensão absurda de suas revelações sobre mim, sobre o que sinto, sobre o que ainda ouso defender. Como leitor eu nunca sou/serei o mesmo. O maior risco de permitir a invasão do texto nesses terrenos perigosos  do sentimento é o extravio de qualquer chão. Eu poderia jurar – antes – que estava imune a esse tipo de magia negra. Que obra alguma teria tal poder ou permissão de minha parte para devassa tão profunda de coisas minhas “de verdade”. É claro que ao escrever eu poderia ter todos os feitiços possíveis a meu dispor, porém não seria bobo de deixá-los virarem sobre minha própria cabeça. Engano – muito engraçado para os outros – quase trágico para quem o engendra. Agora não é só o acontecimento “normal” (já que o poema é muito um acontecimento também, mas de “aberração”, uma anomalia provocativa), não é só a fossa, o porre, a bancarrota que atravessam a gente num plano mais pragmático, é também esse distúrbio nas pupilas dilatadas, esse instante de possessão demoníaca ou coisa (desa)parecida, essa incontornável overdose de imagem, som e sentido. Descubro que estava correto quem não quis contar: o poema nem carece de (r)existir, (assim como não carece de cigarros e doses mais fortes de bebidas quentes). O poeta? Sim? De quase isso tudo? (r)existir soa melhor que meramente existir ou resistir. Ser outro na constatação: estou de pé no mesmo lugar ou de volta ao lugar anterior, mas não sendo mais – nunca – o mesmo. estar outro. A cada leitura. A cada palavra assentada no subsolo da voz na folha. Acho que tem muita beleza o gesto de admitir isso ao mesmo tempo em que é melodramático. Tragicômico? Homem aceitando fragilidade é sempre assim? Não se meta a escrever quem não tem estômago para se olhar nos espelhos. Aceitar a possibilidade de os estilhaços não colarem é um passo interessante. O primeiro,  acredito com mais força agora, é dizer que não reconheço mais quem escreveu a primeira frase desse texto.

quinta-feira, outubro 22, 2015

[Já olhaste profundamente para
as riscas da tua mão?]

Guarde a risada
para depois de
talvez
e não faça mais
perguntas,
não queira saber
de que lado
partirá a próxima
mão a estalar
na tua cara


não percebes que
as coisas, as pessoas
e os cães andam
cada vez mais
mordidos por essas
luas?

Tu insistes
em lhes oferecer
a carne dos braços,
os véus
dúbios do sexo
e as vogais
raquíticas, semi-
áridas da
garganta

Eles só
conhecem o que
é dentes,
ranger de dentes,
fome e essa espécie
de gente, ou
presa, a que
pertences, sim
tu és destes
que nunca crescem,
ficam idiotas,
suspensos
no ar de alguma
infância obscura
e por isso sempre
servem bem como
pasto
para as feras
Será que só
aprendes quando
estás
com o pescoço
entre mandíbulas?
Quantas vezes mais
tua mão evitará
o golpe tranquilo
entre os
olhos?

Não insista na
tolice de
ignorar o que
as riscas, os
garranchos,
as elipses
entre teus dedos
querem dizer
isso que pensas
ser
sorte, pode muito
bem significar
apenas
um leve atraso
daquilo
que nunca pede
licença
para acontecer
 
         Jonatas Onofre

segunda-feira, outubro 19, 2015

[a fúria do peixe]

se tentam ferir
meus pés

não procuro
acordos de paz

falar tem se
tornado cada vez

mais
um mero ganir

pelas sombras
e eu já tenho

fastio demais
para responder

ainda mais por
saber que

há tempo de ouvir
o que ninguém tem

coragem de anotar
e há tempo de

esquecer como
chamar alguém

pelo nome
não descuidarei

posso jurar
que algum rosto

escora uma porta
e sorri de mim

sou mesmo
uma fé que fere

há que se pagar
o preço de não

subir
à superfície para

respirar

domingo, setembro 20, 2015

O rosto de benedita vincado, vincado de rugas tão belas. que benedita ainda é moça. apesar de mãe, vó, bisa. oitent'anos de mocidade sob o lenço. assim ela consola os cabelos. mais que de prata eles são. à vista. só os poucos que se derramam do tecido grosso. sem estampas. os olhos, os olhos de benedita olham sim. e sempre a parte de mais incêndio em qualquer corpo. é um corpo pouco. o dela. pequenas. roupas alvas. ariadas em pedra de rio. a boca de benedita murcha, murcha é também uma flor tão luminosa. sabe-se que agora não se lamenta pelos dentes. pela ausência de qualquer coisa. que tudo o que resta já guarda como dádiva. a essa altura não há razão de lixo na vida. nunca houve pronúncia de luxo. nem de temor da loucura. os sãos oprimem com ferrões e lucidez. ela prefere o barro. as mãos mudando a cor debaixo de chuva. as veias regidas por outra maneira de desembestar o coração. viver mais do que sempre. o exercício amanhecido de gargalhar nas encruzilhadas. uma vila inteira não ouvindo a voz. a voz de benedita. dobrando esquinas. subindo telhados. revirando folhas nos quintais. benedita moça de novo. moça sempre. dia após era. era após hora. família vivendo as lonjuras de ser família. dos cuidados. dos medos. qualquer dia uma queda. um coração espocando na ladeira. uma cabeça partida em cacos de argila. e o corpo como aquele pote que a menina benedita estirava no chão de terra batida de mãe. tempo que não se sabe o quanto tem de ontem. de agora. o corpo como pote fica no chão todo manso em ser coisa quebrada. o é. chão cicatrizado de tanto passo de gente e bicho. Benedita morre não. sabe. volta a ser mais que pó. mais que barro. mais que estátua na praça. pequena entre casas de taipa. as mãos de benedita cálidas, cálidas franzindo as roupas do noivo. moço agora. como ela. desenterrado do canteiro lateral do cemitério. o juízo de benedita dizem. perdido. um dia ela voltando do rio e já nas costelas trazia aquela risada. ninguém devia espantar-se com isso. filhos e filhas. todos só precisam louvar seus longos cabelos. os mistérios de sua pele toda escrevinhada. décadas e décadas. benedita pregando-se nua nos varais. benedita esquecendo a língua inútil dos homens. benedita morre não. sabe. ninguém nunca resiste a tal amor. Ninguém vive não. só se um dia sentar nu. abraçar o chão junto com ela. e pedir. vó benedita ensina que a gente aprende. ensina que a gente cansou de razão. ensina que agora a gente quer viver. viver vida mesmo. viver verdade.

Jonatas Onofre

sexta-feira, setembro 18, 2015

Praga & Paga

Em breve ele será apenas o pó que veste o corpo e nada mais terá a dizer afinal tudo se despede e o cadáver grávido de amanhã não nos interessa.coragem é pensar e não mentir ao menos para si quando tudo que é chão trai e o espelho cheio de sarcasmo chama pra conversar e não te responde mais. é o que ele pensa. a mais arrogante ingenuidade. sua crença cairá no último fio de cabelo como uma praga purgando suas dívidas. todas. para que assim aprenda como nunca. e ao sussurrar no espaço aéreo de uma overdose: perdoei-me. engendre apenas a pronúncia de uma conjugação obsoleta incrustada no mais remoto de seu passado. como um trauma de infância. um crime inconfessável. uma perversão engolida no sêmen de cada noite. patético. só agora percebe: não sabe mais dizer amém, amem. talvez achar que sabia tenha sido sua maior ilusão. dentre todas. todas. favor não ter pena dele. não é necessário. na vida real esse tipo de depoimento classifica-se como melodrama barato. não se meta medo. não se meta nisso. o que se pode fazer. azar? o nosso que nunca. acho que significa até uma espécie de sorte pra ele. sim. uma sorte como uma navalha, uma gravata, um vidro todo de calmantes na hora exata em que a fuga solicita. exige. sabe o que é? é o que vale: nada de esquecer nossos umbigos. não serve. ele só sacou como a coisa toda caminha. só isso. deixe-o às voltas com suas próprias mãos. ninguém precisa se sujar além daquele balde de lama que recebeu ao nascer para equilibrar sobre a cabeça e com o qual deve se desdobrar até o último tropeço. o que podemos pensar? nele? já disse que não vale nossa pena. resolve-se antes de nós, inclusive. e para nossa inveja silenciosa, despeitada, escondida sob o falso espanto e a piedosa reprovação. ele saberá extraviar-se. é a coisa. a única que a gente nunca desaprende. parece até que sempre começamos de um jeito diferente para encerrar assim. mas não vou falar de certezas. tenho medo. digo que parece. basta. ele começou assim: dizendo o que era. o que não era. conversas de crer. vê. é possível? quero rir. muito. não dá pra ser menino toda vida. entre a praga e a paga esperto é quem sai de cobrador. trate de sufocar qualquer misericórdia. piedade é para quem tem ganas de se jogar das alturas esperando asas. talvez anjos. sendo que o tesão está em pisar bem essa terra estuprada. abraçar o corpanzil suculento de nossa crueldade. ser gente como gente de fato deve ser. chaga e imundície. famintos por desgraças. saiba que já se foi o tempo de serventia dos heróis. e falando em tempo. esse que é nosso não passa de uma grande porcaria esvaindo-se como um vazamento de privada. entende agora? nada mais que fezes. não pense mais nele. certo? em breve será apenas o pó que veste o corpo e nada mais terá a dizer. você tem que se conformar. Não? Nunca? Aí sim o azar passa a ser teu também. E eu não quero fazer nada. Eu só estou aqui para cobrar.

Jonatas Onofre

quinta-feira, setembro 17, 2015

blackout melody
eu e
tu, rest-
às escur-
as
regg-
aí o sangue,
a vontade let's
play, let's
play
bá-
lãs-
se quis-
erre-
se-
nã-
um-
as-
ó se-
hahahaha o laps-
ó:
deixam-
eu
tex-
tí-
cu-
lo-
te-
ca-
í-
r
no br-
eu
do br-
às
do br-
é-
shô-
w

   Jonatas Onofre

quarta-feira, setembro 16, 2015

Água & Vinho
Desde cedo os utensílios me ensinaram
a maneira mais serena de ser cruel
Antes mesmo de você abrir o espaço que
nunca houve entre minhas costelas
Confesso que relutei enquanto guardava
minhas mãos em algum bolso falso
O melhor que se pode aprender neste resto
de mundo é como esquecer a piedade
Não o jeito mais discreto de esconder as
unhas cheias de terra e açafrão
Quando parece que é só a melodia leve de
um piano e quase queremos sorrir
É bem nesse instante que se deve procurar
alguém para purgar nossas faltas
Fazer de olhos abertos o que nunca se faz
nem com o devedor mais maldito
Estamos aqui para nos ferir pelos séculos
mesmo quando não for possível
Então todas as vezes que estivermos perto
de sarar passaremos brasas ali
Assim como não deixarei minha mania de rir
um pouco antes da quase morrer
Eu sou mesmo cruel para além de minha voz
e da pouca força nos joelhos
Algo passa pela cabeça como fumaça ou pó
não posso saber de uma coisa
Me vejo naquele copo de água tão frágil
que você despeja num mar vermelho
                                 Jonatas Onofre

segunda-feira, setembro 14, 2015

the new, ei Gil
vê bem, frá-
gil
eu tenho sede
sim
o mundo segue-
se-
indo des-
igual
cru-
el paz-
so-
la paz-
so yo trôp-
ego e
la cara
lavada em leve-
dura
esperando-
a
deixa-
a
cauda des-
sa ser-
eia
dessa sor-
te
que a vida
não
permite-se-
r não
outra coisa
nunca:
a gente jantando-
a inteira,
no que pare-
ser uma ba-
leia
e é
só tamanho
da
fome
total-
i-
otária

          Jonatas Onofre

quarta-feira, setembro 02, 2015

[defeitos da drug-
íman 15]

- com
os dedos
nos bolsos
falsos -



típic
-o blood-
ígneo do poet
"a"
deve con
star
nos cr
éditos

- alguém m
ostra o com
ínício das
escadas -

seu cr
hímen deve
ser em flo
res art
office
(A.rt
ific
I.al ins
emination
S)

- difícil é
ler, nisto -

"A", lã
min
ímãn, deve
ser levado
na mão,
a idéia
nunca, na
cabeça

- neste e
difício -

São
permit
idos
trucks
perform
(nus)
áticos

- os últimos
andares serão
os primeiros
a virar escombros -

"A", o fim
vai se l
ograr
pela jam
nela
nem aí para
o f
acto
de ser
em
terminante
mente
vetad
os
des
locamentos
temporais o
u geo
gráficos
" morte, vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão
que já se vai
revejo nessa hora tudo

o que ocorreu

memória não morrerá..."

Sentinela, de Fernando Brant e Milton Nascimento, por Jonatas Onofre:

              https://soundcloud.com/jonatas-onofre/sentinela-ao-vivo

terça-feira, setembro 01, 2015

Trapdoor to Rave
examinem as avarias no meu fígado,
mas só amanhã. agora podem viver a
trip de Alzeimer [chuvisca numa te-
la analógica e nenhum de nós pode
voltar aos sete anos ou ao primei-
ro nó de línguas] eu quero chupar
o encéfalo grilado dessa Dj-genera-
tion. ou acredito muito em tudo is-
so que parece passar pela gente.mas
nem pode ser mesmo verdade um beijo,
um atrito entre nossos púbis, algum
corpo mais estranho que um copo es-
migalhando-se na tua tatu-traquéia.
[nunca deveriam ter me acordado tão
cedo, a essas horas eu nunca tenho
bons instintos] dançar para que o
holograma de nietzsche nos acenda
buquês de velas vermelhas na encruz-
ilha dadá [eu sei que todos os poets-
tars querem a escritura do cabaret
do voltaire] qualquer dia ainda vou
encher seus mictórios com a areia pro-
duzida na minha bexiga de gás élio.
pensar como se a comissão julgadora
do apocalipse estivesse de recesso
ou prestes a cometer suicídio. aqui
uma informação que pode ser importan-
te: a palavra arrebol nunca ferveu
no meu esperma.[isso é um simulador
de cabeça em curto-circo-icto quando
alguém ainda acredita no ritmo papa-
pai-madre-never-marijuana de um sonet-
otário] aí a gente começa uma festa
no lado mais bad de um satélite ingl-
ês e nem se importa com a precarieda-
de dos jogos de luz. quantas vezes vc
já se perguntou: "em que recôndito a
mulher que eu ainda quero está escon-
dendo as mãos agora?" sorria se ainda
quiser ser uma reprise afundando-se na
tarde de um domingo. esqueço numa gave-
ta todas as vezes em que não respondi
à altura com essa boca bem mais lasci-
va pairando sobre meu uniforme de anjo.
mas esta é a hora de pular com os dois
pés sobre os pedais de destruição. ver
o desespero de quem não sabe a serventia
dos alçapões e acha - mesmo - que é pos-
sível entrar na rave só pressionando-se
para cima. gozar sem as mãos no rosto
mais atônito dessa década [para ser a
obra-prima em HD de um cinegrafista ama-
dor] por sofrermos todos de imperícia e
nunca sabermos a diferença entre transe e
transa até que tenhamos danificado alguma
peça e ninguém mais consiga consertar.
                           Jonatas Onofre

segunda-feira, agosto 31, 2015

[de como Crhistian é o sol e você sempre
será um só]
um leão num-
a cai-
xa foi a
isca
que nenhum
ano
quis enfiar na
boca do
aquá
rio
onde tua cren-
ça na vi-
da ia se a-
cabando,
[não como á-
gua ou
como lá-
gr
ímã,
mas como al-
go mais seco que
um cora-
ção
que
não cabe mais
em si]
e foi
assim que
nunca foste a
Londres
muito menos soul-
beste
como chegar ao
quênia
mas estavas tão
perto de a-
prender um a-
braço
talvez você
voltas-
se
com-
o próprio sol,
sim.
seria mesmo
com-
o subir de um-
a manhã
bastava encontra-
lo, lá
no caminho,
um filho-
te de
leão
se houvesse
um
se os
homens deixas-
sem medo
es-
se caminho-
u es-
sem-
ar
ou esse o-
lhar de crian-
ça
cheia de juba
existir

          Jonatas Onofre

sábado, agosto 29, 2015

Confesso que já quis - muito - que o poema fosse uma cura. uma fuga. uma resposta. uma carícia. um orgasmo. um soco. um beijo. uma verdade. uma vingança. um presente. um sorriso. um abraço. uma lição. um desabafo. uma confissão. uma revelação. um sacrilégio. uma manhã. uma mão. uma cantiga. uma serpente. um escorpião. um grande lábio. uma fresta. uma festa. uma fossa. uma foda. uma mentira. um abcesso. um absurdo. um alto-falante. um pianíssimo. um ventríloco. um antídoto. um incêndio. uma formiga. uma lágrima. um ímã. uma semifusa. uma verdura. uma tesoura. um piano. um asilo. um parafuso. um sobrenome. uma janela. um casaco. uma estrada. uma razão. um...............................................................................Fui - muito - fraco ao desejar tudo isso e muito mais (do que não deveria). Sou louco por ainda supor que resta alguma coisa de pé - e que mereça? estar de pé - na superfície do mundo que inventei ao compasso de meus pulmões - já não tão puros - . A única ferocidade (mesma coisa que certeza) trincada nos dentes é de que nunca permitirei que alguém acredite em alguma vitória sobre todas essas vontades. Cada poema me vence por ser apenas poema. Nunca me serviu para nada além de sacudir o menino sonolento que habita algum quarto escuro em mim. Para desabafos - quase - me serve esse tipo de prosa (dramática? ridícula? pobre?). O poema não. O poema - pode - acontecer. casa?. pelas minhas mãos e - mesmo assim - me deixar trancado do lado de fora.
                                                                               Jonatas Onofre