sábado, agosto 29, 2015

araçá-blur

i can't believe the news today:
teus satélites naturais 
sem cd de instalação
tua alma aprisionada
nos calabouços
de um pen drive
[oh no... this is
a nightmare...]
acabou chorare, billy
fodeu tudo, augusto
vão dizer que a gente
não sabe ficar odara
vão nos fazer
de tropicanóides
-- você já foi a
tatooine, nego? --
lá vem o skylab
descendo a ladeira
-- what a bunch
of daft punks ! --
hi hi johnny, hi hi alfredo
resistance is futile, my fellas
a revolução será
remasterizada
e esse modem
é pequeno demais
pra nossa gangue;
give it up, sweet michael
eles não ligam pra gente
o futuro é tamagotchi fabricado
na zona franca de manaus
[batteries not included]

               Camillo José
Confesso que já quis - muito - que o poema fosse uma cura. uma fuga. uma resposta. uma carícia. um orgasmo. um soco. um beijo. uma verdade. uma vingança. um presente. um sorriso. um abraço. uma lição. um desabafo. uma confissão. uma revelação. um sacrilégio. uma manhã. uma mão. uma cantiga. uma serpente. um escorpião. um grande lábio. uma fresta. uma festa. uma fossa. uma foda. uma mentira. um abcesso. um absurdo. um alto-falante. um pianíssimo. um ventríloco. um antídoto. um incêndio. uma formiga. uma lágrima. um ímã. uma semifusa. uma verdura. uma tesoura. um piano. um asilo. um parafuso. um sobrenome. uma janela. um casaco. uma estrada. uma razão. um...............................................................................Fui - muito - fraco ao desejar tudo isso e muito mais (do que não deveria). Sou louco por ainda supor que resta alguma coisa de pé - e que mereça? estar de pé - na superfície do mundo que inventei ao compasso de meus pulmões - já não tão puros - . A única ferocidade (mesma coisa que certeza) trincada nos dentes é de que nunca permitirei que alguém acredite em alguma vitória sobre todas essas vontades. Cada poema me vence por ser apenas poema. Nunca me serviu para nada além de sacudir o menino sonolento que habita algum quarto escuro em mim. Para desabafos - quase - me serve esse tipo de prosa (dramática? ridícula? pobre?). O poema não. O poema - pode - acontecer. casa?. pelas minhas mãos e - mesmo assim - me deixar trancado do lado de fora.
                                                                               Jonatas Onofre

sexta-feira, agosto 28, 2015

Manual de Roteiro

barato audiovisual, espa-
ço de montagem
ora
suponhamos uma
nebulosa- sem andaimes
ou escoras -
para um close do mito solar,
sequestre-o,
resquício de um deus,
faça ele cuspir uma
confissão:
seu pulmão avariado
no fundo do set
(você pensou que ninguém o
encontraria
ali?)
a cara revirada para as
pedras
e um princípio de falta de
ar
também não estavam no script
antes que a câmera se transfigure
no incêndio
que tua miopia desfigurou
não queira saber de
legenda
morda qualquer boca que
der sopa
transe sobre a terra sem
sal
e o sol na cabeça passará
longe
de ser rock,
depois subirás,
como um nome muito
mastigado
ou
uma mosca
forçando a entrada num
olho de peixe
ou
o cadáver do cineasta
envolto na tela, escura
e sagrada
dos créditos finais

         Jonatas Onofre

quinta-feira, agosto 27, 2015

god is an astronaut in a stupid man suit

foi um sonho de
verão numa praia:
a young girl with eyes
like the desert, quatro
cartelas de zolpidem.
esta paisagem híbrida é
má configuração de DNS,
erro bruto de paginação.
«you are sleeping, you
do not want to believe»
quero 01 magik whip
pra quebrar o gelo,
quero uma nightcall
to tell you how i feel
[they made me do it]
file:///c:/documents%20and
%20settings/all%20users/
documentos/meus%20vídeos/
shia_labeouf_just_do_it.wav
um hamster rói o elástico
da tua calcinha mais fofa;
filhotinhos de ziprasidona
almoçam o teu nariz azul.
o começo das vozes no teu rádio,
a vontade de comer rabanada.
— you've met with a terrible fate,
haven't you? sua danadinha.
— desculpe estranho eu voltei
mais puro do céu.
a lua inteira agora
é uma memória
torpe de tua pele
the killing moon
will come too soon
mil e uma noites de
suspense e hipotermia
toca o telefone,
chega um telegrama:
wake up, donnie
precisamos comprar
mais anestésicos.

               Camillo José

quarta-feira, agosto 26, 2015

teus olhos em longo disparo
convidam
reteso arco
íntimo
tentando alcançar
tanto silêncio

         Guilherme Delgado

terça-feira, agosto 25, 2015

[vamos a 91 quando dava gosto
nascer nesse país]
e os
jornalistas
cantavam árias de
jazz nos gramados de
nova york
porque não
por
que não
fazer parte dessa
banana - van
guardista na vitrine
do cinema são luís dos
lençóis maranhenses?
- as pessoas
caçavam um demônio
que funcionas-
se sem manuais e
baterias recar-
regáveis -
ajoelhados
à janela de uma
tv
quem ousaria querer
outra coisa?
(uma pena
eu ainda não
saber
que era possível se
excitar
com as mãos macias de
uma pergunta
retórica)
aqui podem
confessar as sau-
dade política-
mente incor-
retas:
cigarros em
horário nobre, ma-
milos no almoço
e um puta
que pariu antes
de encher a lan-
cheira
do seu fi-
lho
mais novo
[espero
que ninguém
se confunda com
a quantidade
de espelhos no
avesso
desse poema]
células cerebrais
estavam sempre em banho-
maria
e os narizes co-
çavam sem coca-
ína
ou cola?
besteirol del-
larte,
eu sei,
e a gente sem
entender
- mesmo ágora,
todo mundo metido
à besta -
tudo
tão divertido
passando direto so-
bre a hemor-
ragia de meu vocal-
bulário
eu aprenden-
do os
piores nomes e
esse mundo virando
uma espécie
estranhíssima de
fumaça
só me restou -
a etern-
idade - de
um dia de todos os
santos
e uma dívida pin-
gando até o
último go-
le
de petr-
óleo

         Jonatas Onofre

sábado, agosto 22, 2015

Não é o que eles chamam de rock and roll
ao norte
de babilônia
no sentamos,
certamente,
o lugar mais
fácil para esperar
o que nunca viria,
qualquer
degrau no infinito
onde as horas
rasgassem
o horizonte
e a risada lisér-
gica de um guitarrista
aposentado nos avisasse
que há duas
opções perto das
nossas têmporas:
foder-se
junto com
a catástrofe
do poema
ou
inventar
um novo hit
sampleável,
o que também
significa usar seringas
para encher os olhos
de histeria
ou
continuar
sendo a aberração
desse show,
"isso nunca
foi rock and roll"
você pode
dizer,
eu estaria
muito ocupa-
do em minha
busca pela
utopia
dos orgasmos múl-
tiplos na pele
de uma criatura
distraída,
tudo
o que pode
importar já está
precário demais
para ser real-
mente levado
em conta,
aproveitem a noite,
arranquem de suas cabeças
o pouco de lucidez que ainda
fede nos cabelos,
"isso ainda está longe de ser
rock and roll" você pode in-
sistir
acha mesmo
que vou dar atenção? estarei
com sono depois de mais uma vez
ter fracasso no meio da viagem,
pensarei
na próxima queda, e na próxima,
e na próxima, e
continuarei
achando tudo isso uma
piada muito mal rabiscada
na latrina de um
sanatório
enquanto
isso deixe
a música estourar
cada alvéolo
como se fosse
a fumaça que
você passou a
vida inteira
tentando não
tragar
tudo será
perfeitamente
entorpecente até
que o sino toque
e o último sóbrio
replique:
"goodnight,
now it's time
to go home"
se você ainda
tiver casa talvez
eu deseje boa sorte

         Jonatas Onofre