sexta-feira, julho 10, 2015

                   Carta ao Pai*

        Quando mais nova, meu pai,
           Bordaram-te em feridas
Disseram-me que tu não eras homem
               E eu nunca entendi
        Que homem não é homem?
                    Questionava
              Já que ferir por ferir
          É a nossa melhor arma
   Aquela que se faz desnecessário
                 Apertar o gatilho

                Agora mais velha
                     Olho pra ti
            Hoje bordam em mim
                Que sou homem
              Homem sapo de ti
               Já que ferir é ferir
       Sem que eu aperte o gatilho.

                      Débora Gil Pantaleão


*Do livro Se Eu Tivesse Alma (Ed. Cia do Ebook, 2015).
Mais em: http://www.ciadoebook.com.br/catalogo/se-eu-tivesse-alma

quinta-feira, julho 09, 2015

nódoa que se nega; esfrega, mas não lava.
tens a calma de quem investe contra uma 
gangue de nuvens munida da própria nudez
e carregas na geografia de teus arquipélagos 
o esboço original da igreja de são francisco.
unha galáctica inflamando a pele das horas,
pista de pouso para libélulas órfãs timbrada
em papel vegetal. eu profetizo teu umbigo anti-
aéreo atravessando o vale da sombra da morte
num balão de algodão-doce, teu retrato-falado
colado em portas de saloons e delegacias do
arizona, a musiquinha do elevador divulgando
tua chegada ao chefão da última fase. falas um
idioma de sonoridade úmida e me educas ao
design de teus mosaicos como uma abelha a
amamentar com melaço os favos do sol. és
mancha multiplicada de cegueira e delírio, gota
de suor caindo em loop na camisa-de-força de
um deus canhoto. escoltada por uma procissão
de arraias, me convocas para comer panquecas
na varanda do planeta e naufragar minha sintaxe
no teu mar de pixels. recuar soa inútil e a manhã
é um sorvete que evapora preguiçoso enquanto
redimensionas minha voz com a ponta dos pés.


                                           Camillo José

segunda-feira, julho 06, 2015

Podem me virar do avesso que não me viro, sou eu mesmo do avesso como do direito, e mesmo que me esquartejem e espalhem os pedaços continuarei sendo eu mesmo, como um caleidoscópio é um caleidoscópio e não um simples jogo de espelho, um caleidoscópio até que o matem por ter sido mais que um simples joguete, mais capaz de beleza do que quem o fez ou desfez.

Meu raciocínio lhes pertence mas não a minha consciência, podem me fazer girar como um pião mas é em torno de mim que eu giro, não em torno deles, este o meu sistema solar e desafio-os a arrancar-me o sol como podem fazer com o seu, eles que se julgam os donos de tudo e são os donos de nada, e se apavoram com o Nada de que vieram e a que estão sempre voltando. 

Enquanto eu puder pensar eu pensarei, lúcido ou não pouco me importa, e nem preciso de lucidez para lhes cuspir no rosto até o fim, basta-me apenas esta vontade de cuspir, esta ânsia e esta força incoercível, de que sou o único deus porque nasceu de mim e não deles: como lhes cuspo agora e até depois de morto - e mesmo já antes de haver nascido.

Não lhes tenho ódio mas desprezo, como nunca tive ódio à polícia ou aos donos da polícia, nem a todas as polícias do mundo reunidas, que apenas procuravam, e mal, imitar o exemplo vindo de cima, com as suas providências copiadas da Divina Providência, punindo os inocentes e sobretudo os culpados, os culpados de serem inocentes, como se punissem o canceroso e o animal de duas cabeças. 

Esta história de me plantar aqui como árvore, nesta ou em qualquer esquina, é para Eles o cúmulo da humilhação, quando os únicos humilhados serão eles mesmos, assim forçados a me manter nesta posição forçada, hora ou séculos seguidos, como se eu fosse uma presa muito mais importante do que sou, ou talvez então porque o seja, mortal porém imortal enquanto vivo. Como árvore lhes cuspo na cara do mesmo jeito, mesmo que me derrubem e sobretudo se me derrubam - e, enquanto não cuspo, posso ouvir nitidamente os pássaros que me procuram como árvore, embora Eles também tenham prendido os pássaros ou os transformado em pedras ou em prótons e elétrons. 

Espero pelo pior, mas já a esta altura o pior será apenas mais um motivo para eu lhes lançar meu testemunho no rosto, o meu testemunho e o meu cuspo, e não apenas em meu nome mas no de todos, desde que o homem foi inventado e com ele o câncer e a bomba atômica, a cadeira elétrica ou o amor não-correspondido. 

Uma árvore: a esses pândegos falta-lhes sequer imaginação!

Campos de Carvalho. A chuva imóvel. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. Páginas 113-115. 

Mais em: https://mega.co.nz/#F!p0oCGI5B!geFILqRgVB8ceEGHKs_5yg



domingo, julho 05, 2015

Estive sondando pedras:
Batendo em suas portas;
olhando pelas brechas.
Ô de casa! Alguém aí?
Algumas me atenderam:
Quer um café? Sim. Depois
de sentarmos, contaram algo
sobre as areias, caramujos,
e que dói parecer com paredes.
Paredes não são nada, não;
mas dói parecer com paredes,

Disseram. 

            Carlos Nascimento

sábado, julho 04, 2015

Do processo em cria
Entre o homem e a poesia percorre a contramão das vias. No desatino da palavra se arrepara um conluio.
O olho não se retrai ao julgamento dos cílios.
Fixar todo em pensativo equaciona o processo quando em seu covil um arsenal se instala.
Carlos Araújo

quinta-feira, julho 02, 2015

Preço

Há algo de terrível em permanecer escrevendo. A não-permanência. Não sua, dos outros. Demora, demora muito pra você se acostumar (ou se embrutecer, que é mais conveniente). É assim: você escreve e alguém também escreve; este alguém conhece mais outrem que também manja dos paranauês. Naturalmente vai rolar uma empatia. Mas aí vem a vida e grita: trouxas! Claro, a vida é sagaz. Não chega arregaçando assim.
Ela te chama pra fazer vestibular. Pra fila do primeiro emprego. Pra tirar a carteira de motorista. Pra arrumar um emprego melhor. Pro mestrado. Pro concurso público. Pra estabilidade financeira. Pra rachar um apê com amigos. Pro doutorado. Pra casar. Pra quitar o automóvel. Pra um emprego ainda mais bem remunerado. Pra pós-graduação. Pra cuidar dos filhos. Pra morrer em paz.
É possível administrar com a escrita? Claro.
Só que você — você — percebe que não tem nada a ver com isso. E permanece. Só que nem todo o grupo ficou. Só um pedacinho e, mesmo mutilados, vocês até que foram longe. Conquistaram leitores. Leitores que também não permanecerão. Não por uma queda de qualidade do que você escreve. Vide o chamamento da vida supracitado.
Se na sua cidade corre um rio, você sentará na margem pra observá-lo. Se for litorânea, será com o mar. Se há algum rochedo elevado, é lá que você vai ficar olhando o sol deitar. Se você mora em prédio, vai se avarandar à noite vendo as luzes se apagarem. Não importa onde você esteja: é tudo deserto. E mesmo sabendo que até a dor é passageira, você vai procurar algum motivo pra que tudo fique doendo menos.
Você vai encontrar. E não permitirá — não mais, nunca mais — que as coisas simplesmente passem; que as pessoas saiam acenando. Até a próxima, valeu; a gente se esbarra! Nada nem ninguém passará mais por você como um sopro. Só a tempestade te interessa, menos que isso você não aceita. É este o preço pela permanência. Sim, é caro. E você já está enfiando até o pescoço nessa lama. Você não tem escolha. A saída é abrir um crediário.
                                                                                             Fred Caju

quarta-feira, julho 01, 2015

Poema banguelo
nem dentadura insiste
em obter e mastigar
com os dentes
resiste
abocanha e fere
tanto a si
como
a quem morde
baba
lambe
profere
como chuvisco
seu acorde

       Carlos Nascimento